domingo, 2 de setembro de 2007
Realidade
A equipe de redação de Realidade soube entender sua época e, apesar da censura imposta pelo regime militar, destacou-se pela sua principal característica, que era a ousadia, a irreverência, permitindo ao leitor conhecer vários ângulos das questões abordadas, incluindo pesquisas de opinião.
Desde seu lançamento até 1968, a revista viveu seu apogeu. Manteve-se no mercado até 1976, mas já não possuía a mesma força após a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5) em dezembro de 1968.
No período de maior tiragem da revista, a contracultura estava em alta. Contra valores como família, casamento, capitalismo. Contra o individualismo do homem pós-moderno, a artificialidade dos produtos expostos em supermercados e a industrialização. Os hippies pregavam a vida em comunidade, o cultivo de produtos orgânicos, valorizando a natureza e ainda difundiam o Artesanato.
Muitas vezes, o texto era redigido em primeira pessoa, destacando a vivência do repórter, tornando-se, assim, parte integrante da história. O fato de experimentar e relatar os próprios sentimentos em relação ao fato leva a uma comparação com o New Journalism, expressão americana para definir um jornalismo que trabalhava com arte, emoção e linguagem jornalística tratada literariamente.
Em uma edição especial de janeiro de 1967, Realidade reportou as transformações na vida da mulher brasileira. Toda a edição foi apreendida por ordem do Juizado de Menores da Guanabara (hoje Rio de Janeiro).
Esta edição tratava da nova condição da mulher na sociedade, abordando temas como virgindade e aborto, trazendo ilustrações do aparelho reprodutor feminino, fotos do momento do parto, histórias de casamentos desfeitos; perfis de pessoas religiosas envolvidas em questões sociais, de uma mãe solteira orgulhosa de sua condição e de Ítala Nandi, que foi símbolo do rompimento dos padrões conservadores, proclamando a independência e a liberdade feminina.
As visões de mundo apresentadas pela revista sempre destacaram fatos importantes que marcavam a história de forma contundente, já que refletiriam em mudanças em todos os espaços geográficos, procurando sempre enfocar as que infligiriam ao Brasil maiores alterações.
O exemplo mais forte da revista: o jornalista José Hamilton Ribeiro foi enviado aos campos de batalha do Vietnã, cuja experiência é nitidamente a radiografia da filosofia de Jornalismo praticada pela revista. Ao longo de 12 páginas o repórter remonta a aventura e o drama que viveu na Guerra e a foto, na capa da revista, revela o momento em que José Hamilton foi socorrido após a explosão de uma mina que causou a amputação de sua perna esquerda.
O Cruzeiro
Dois movimentos caracterizam a imprensa carioca na década de 1920: o aparecimento de um Jornalismo sensacionalista e o surgimento dos Diários Associados. Espelhando de certa forma o chamado pensamento conservador, os jornais da cidade adquirem características peculiares. Para uns o sensacional é a grande arma de conquista do público. Para outros, a ação política seria fundamental.
Em meio a esses dois movimentos, os Diários Associados lançam aquela que seria a principal revista ilustrada brasileira do século XX :O Cruzeiro
No final dos anos 1920 surge na cena carioca uma revista aberta a novas possibilidades de leitura para este fugaz leitor de notícias. A leitura da imagem ganha destaque na cena do Jornalismo, com a criação deste novo periódico.
As estratégias de publicação moldam práticas de leitura. Cria-se, em conseqüência, novos gêneros de textos e novas fórmulas de publicação. Ao diversificar a forma e o conteúdo dessa imprensa diária ou semanal alarga-se, a rigor, esse auditório fugaz e nem sempre visível. Cada nova publicação cria novas formas de organização e de transmissão dos textos, consolidando uma certa cultura escrita.
A revista surgiu em 10 de novembro de 1928. Cinco dias antes, 4 milhões de folhetos – um número três vezes maior do que o de habitantes da cidade – são atirados do alto dos prédios na cabeça de quem passa na então Avenida Central. Os volantes anunciam o aparecimento de uma revista “contemporânea dos arranha-céus”, uma revista semanal colorida que “tudo sabe, tudo vê”. Os panfletos trazem no verso anúncios que serão veiculados pela nova publicação.
Que tipo de sensação causara na cidade estas estratégias? Teriam elas levado o leitor de 1928 a comprar cinco dias mais tarde a nova publicação que trazia numa capa inundada de cores a figura desenhada de forma hiper-realista de uma mulher?Além da profusão de cores, a capa do número um chama a atenção para o caráter do desenho do rosto de mulher que a ilustra: a figura de uma melindrosa. Unhas cintilantes, sombra nos olhos e boca pintada. Completando a atmosfera, sobre o rosto da melindrosa as cinco estrelas de prata do Cruzeiro do Sul que haviam inspirado o nome da revista. Abaixo do título a complementação: Cruzeiro é uma Revista Semanal Ilustrada.
Com a redação, administração e oficinas funcionando na Rua Buenos Aires, 152, Cruzeiro é dirigida por Carlos Malheiro Dias. Possui agentes em todas as cidades do Brasil e correpondentes em Lisboa, Paris, Roma, Madrid, Londres, Berlim e Nova York. O número avulso custa 1$000 e a assinatura anual em todo o território nacional é de 45$000. No exterior o preço aumenta consideravelmente: 60$000. Ainda neste primeiro número anunciam a tiragem do novo periódico: 50 mil exemplares. (Cruzeiro, n. 1. 10/11/1928)
Quase a metade das 64 páginas da revista está repleta de anúncios. Além de páginas inteiras a cores oferecendo os automóveis Lincoln, as novas vitrolas da GE e filmes da Metro Goldwyn Mayer, há também uma profusão de pequenos anúncios: de produtos de higiene à casas de tecidos, de hotéis à cabelereiros; de fogões a gasolina à restaurantes. Profissionais liberais, como médicos e advogados também anunciam em suas páginas. Remédios e elixires os mais diversos completam a extensa lista.
O texto de apresentação do primeiro número traça inicialmente um paralelo entre o nome da publicação e a história do próprio país. Assim Cruzeiro é, ao mesmo tempo, “fonte de inspiração para os primeiros nomes do país”, “a constelação que guia os navegantes”, “o nome da nova moeda brasileira” e o “símbolo da bandeira”. Dessa forma é, ao mesmo tempo, símbolo cristão e símbolo-síntese da nacionalidade. Por tudo isso“Cruzeiro é um título que inclui nas suas três sílabas um programa de patriotismo”.
O mesmo texto particulariza para o leitor as diferenças básicas, na concepção da época, entre revista e jornal:
“Um jornal pode ser o órgão de um partido, de uma facção, de uma doutrina (…) A cooperação da gravura e do texto concede à revista o privilégio de poder tornar-se obra de arte. A política partidária seria tão incongruente numa revista do modelo de Cruzeiro como num tratado de geometria (…) Uma revista deverá ser, antes de tudo, uma escola de bom gosto”.
A revista construiu-se como testemunha de uma época, reproduzindo, com o apoio sempre da fotografia, momentos que são apresentados como unícos. Constrói-se dessa forma como produtores de uma história futura. E seus dirigentes e jornalistas sabiam desse papel.
Seleções
Como as grandes editoras da época descartaram o projeto, Wallace resolveu levá-lo adiante e lançou, em fevereiro de 1922, o primeiro número da revista Reader's Digest, posteriormente batizada no Brasil como Seleções. Em 1936 a circulação já atingia 1,8 milhão de exemplares só nos Estados Unidos.
A expansão da revista para outros países começou pela Inglaterra, em 1938. Em dezembro de 1940, era publicada a edição em espanhol, intitulada Selecciones e, em fevereiro de 1942, a Revista Seleções chegou ao Brasil. A primeira edição em português se esgotou rapidamente com 100 mil exemplares vendidos.
No início dos anos 70, a circulação mensal era de aproximadamente meio milhão de exemplares. Entretanto, uma série de fatores levou a empresa a transferir suas atividades para Portugal. A revista brasileira passou ser editada naquele país, porém deu-se continuidade à venda em bancas no Brasil, com uma circulação média de 110 mil exemplares por mês. Isso até o fim de 1995 marca a volta das atividades do grupo no Brasil.
Revista - Artigo
Na maioria, elas respondem a interesses segmentados - são revistas infantis, femininas, técnicas, etc. Cabe menção, aqui, a duas revistas semanais de informação no formato da americana Time - e, principalmente,Veja, fundada em 1968 e pertencente à Editora Abril, maior empresa editorial do Brasil, é um fenômeno em dois sentidos. Primeiro, no número de leitores.
Com tiragens que beiram o 1,3 milhão de exemplares, ela só perde atualmente, entre suas congêneres no mundo, para as três americanas - Time, Newsweek e US News and World Report. Já ultrapassou a alemã Der Spiegel e as francesas L'Express, Le Point e Le Nouvel Observateur, entre outras. Mas Veja é um fenômeno, também, pelo fato de muitas vezes chegar aos fatos antes dos jornais, noticiar primeiro, dar o "furo".
O papel das revistas, em princípio, é consolidar e sintetizar, ao final de uma semana, o que já foi noticiado ao longo dela pelos jornais. Invertendo essa regra, Veja e, em certa medida, também IstoÉ (fundada em 1976, tiragem em torno dos 500 mil exemplares) muitas vezes têm saído à frente e imposto a pauta que em seguida será trilhada pelos jornais.
Foi assim, entre outros episódios, nos acontecimentos que culminaram com a destituição do presidente Collor. Semana a semana, apareciam em Veja, e quando não em Veja em IstoÉ, as denúncias que acabaram por solapar irremediavelmente a credibilidade do presidente.
A agilidade surpreendente é a boa característica da imprensa semanal de informação do Brasil. Outra é uma capacidade de aprofundamento maior do que os jornais, de forma a apresentar uma história de forma mais abrangente e compreensível. A parte negativa é uma confusão entre opinião e informação maior do que a que se observa nos jornais.
As posições políticas das revistas, as preferências pessoais e idiossincrasias, muitas vezes acabam chegando ao leitor no mesmo tom geral, que se pretende "analítico" e "interpretativo".
A imprensa brasileira é tudo o que se alinhou nos últimos parágrafos - arrogante, carente de profundidade, dada ao emocionalismo e ao sensacionalismo, nem sempre atenta à distinção entre informação e opinião - mas viva a imprensa brasileira. Feitas as contas, somados os prós e diminuídos os contra, ela tem prestado bons serviços ao País.
Revistas - Brasil
Até 1830, revistas eram um produto caro, de elite, consumido pelas classes mais altas, de formação escolar avançada. O negócio nasceu quando um inglês decidiu fazer uma revista mais barata. Sabe-se que essa primeira revista popular tinha matérias leves de entretenimento, informação variada, era quase um almanaque. Como esse tipo de conteúdo interessava a uma quantidade maior de leitores, e com a ajuda do preço de capa baixo, a revista ganhou circulação e a circulação maior atraiu anunciantes.
Por sua vez, o dinheiro movimentado pelo negócio propiciou o avanço tecnológico, que aperfeiçoou os sistemas de produção e de impressão em massa, o que fez com que as revistas fossem produzidas a preços unitários cada vez menores.
A primeira revista feminina brasileira teve um nome comprido e uma vida curta: nasceu em 1827 e morreu em 1828. O título era O Espelho Diamantino, e o subtítulo dizia: “Periódico de Política, Literatura, Bellas Artes, Theatro e Modas Dedicado às Senhoras Brasileiras”. Vida curta, aliás, foi característica do nascimento de muitas revistas em todo o mundo.
Por incrível que pareça, Assis Chateaubriand já tivera a idéia de lançar uma revista ilustrada muito antes dos norte-americanos e dos europeus: O Cruzeiro é de 1927, mas o Jornalismo Fotográfico só foi incorporado depois do aparecimento da americana Life. Mais inspirada no modelo francês, Manchete surgiu em 1952.
Revistas - Mundo
Outras revistas de tendência religiosa ou filosófica logo se seguiram, como o Jounal des Scavans, a mais antiga revista francesa, em 1665, e a Philosophical Transactions, da Royal Society de Londres, no mesmo ano. Filosofia, religião e literatura fundiram-se na primeira revista italiana, a Giornale de’Letterati, que se originou em 1668 sob a edição do clérigo e estudioso Francesco Nazzari.
O termo magazine, surge especificamente em 1704, na Inglaterra, com um volume que se parece com livro, mas tem objetivo, público específico, com assuntos aprofundados. O magazine, de fato, é mais aprofundado que os jornais e menos do que os livros. Os títulos da época transitam por várias estéticas.
Já o francês Lê Mercure Galant por exemplo, imprime notas, anedotas e poesia. Receita que a seguir é copiada por muitos. Só em 1731, é quando surge a primeira revista parecida com nosso padrão moderno na Inglaterra, The Gentleman's Magazine. É neste ínterim que o termo magazine se generaliza e passa a ser usado na Inglaterra e França.
Nos Estados Unidos, a marca inicial é o ano de 1741, quando são fundadas a American Magazine e General Magazine. Até o final do século XVIII já haviam 100 títulos. A razão disso, foi o desenvolvimento econômico, a redução do analfabetismo e maior interesse por novas idéias e desejos de divulgá-las.
Revistas - Considerações
As revistas são objetos fáceis de carregar e de colecionar, além de ser boas de recortar. Receitas de bolo, reportagens dos ídolos, pesquisas de colégio... Quem não lançou mão de uma revista para qualquer uma dessas finalidades apresentadas? Além do mais, dá uma pena jogar fora pilhas e pilhas de revistas, não é mesmo?
Não é à toa que, quem lê determinada revista, faz parte de um grupo. O leitor, normalmente anda abraçado à publicação ou mostrando, para provar aos outros que pertence a tal ou qual grupo. Em outras palavras: a definição de uma revista, passa, antes de tudo, pelo seu leitor.
Vejamos algumas afirmações sobre as revistas, extraídas do livro Jornalismo de Revista, de Marília Scalzo:
“A melhor notícia não é a que se dá primeiro, mas a que se dá melhor”
- Gabriel García Márquez, escritor colombiano -
“Fazer revista é manter uma relação de amor com o leitor”
- Juan Caño, jornalista espanhol -
